Depressão não tem mês. E nem lugar.

19:22

Tá deprimido? Vai viajar!

Olha, não que eu já tenha ouvido isso com essas palavras, mas já ouvi as variantes “saia de casa”, “tenta não ficar triste”, “tem gente pior do que você”... E ok, são frases de pessoas que podem até achar que estão ajudando, mas vamos parar um momentinho… Se alguém te conta que está com diabetes, você fala pra pessoa ir viajar? Diz pra ela tentar não ter diabetes? Fala, “ah, mas tem gente que tem câncer” como se a vida fosse uma competição de quem tá pior? Eu realmente espero que não.
Aí eu pergunto, o que faz as pessoas acharem que é aceitável dizer isso para quem tem depressão?
E a resposta é que além de muitas pessoas não saberem o que é depressão elas também têm um estigma, um preconceito enraizado quando se trata de uma doença psicológica.

Ai Maia, mas cê tá aí “na vida boa dos EUA” (por favor, apenas pare) o que sabe sobre isso?
Eu sei que não é porque eu tenho dias melhores, dias em que consigo sair da cama e que eu estou fazendo um tanto de turismo que eu não esteja em depressão. Eu estou. Estou melhor porque estou tratando essa re-incidência (eu tenho altos e baixos com temporadas sem nada e épocas de surto desde os 16 anos) há quase um ano, com terapia, que eu continuo fazendo mesmo estando no exterior e remédios que eu tenho sim que continuar tomando. Não importa que eu esteja me sentindo melhorzinha, meu tratamento ainda está em andamento e eu conheço o bastante dessa doença pra saber que o melhor a fazer é continuar o acompanhamento médico e levar um dia de cada vez.

Vir pros EUA não me curou da depressão, a diferença é que eu estou deprimida olhando o Space Needle.
Oi, meu nome é Maia e sim, eu tenho depressão, mesmo olhado pro Space Needle.
Tem dias que eu me sinto péssima. Tem dias que não quero sair e nem nada e tem dias que eu to bem. Tem coisas que eu tenho que trabalhar em terapia, tem coisas que eu já consegui perceber, tem outras tantas que ainda faltam.

O que eu quero dizer com esse texto é que depressão é sim uma doença e como tal tem que ser tratada, e por profissionais qualificados.

Eu sei o quanto pode ser difícil pedir ajuda, principalmente quando a gente não sabe muito bem o que está acontecendo. Eu lembro quando comecei a ter ansiedade e depressão a primeira vez. Estava no colegial, mil coisas acontecendo, minhas notas decaindo, uma angústia absurda, vontade de literalmente levantar e sair correndo (coisa que eu fiz algumas vezes), confusão, um sentimento de “isso não sou eu” seguido de “e se isso for eu agora” que gerava pânico. Explodia sem motivo aparente ou por motivos “pequenos”, descontrole emocional, tudo isso. Até o momento em que eu me cortei no banheiro da escola. Por que eu queira morrer? Não. Mas por que eu me sentia tão angustiada que aquilo parecia uma forma de que algo acontecesse. Esse algo, por mais que eu não soubesse ainda era pedir ajuda.

Foi uma época conturbada, pros meus pais que também se perguntavam se eles tinham feito algo errado (spoiler alert, eles não fizeram), pra mim que tinha que aprender a lidar com isso e entender essa “nova eu”, me acostumar com a terapia foi e é até hoje complicado e eu já mudei muito de terapeuta até achar os que eu me dava melhor e isso é totalmente normal. E eu lembro que sempre que eu falava, numa boa “ah, eu to tratando depressão e tal” as pessoas faziam uma cara bizarra. Parecia que eu tinha dito sei lá que às vezes eu vou pro quintal e fico chamando tartaruga ninja no ralo segurando uma pizza de muçarela.

Percebi que pra mim falar sobre isso era algo normal mas pra elas não. Decidi que aí que eu ia falar mesmo porque se tem algo que precisa ser dito, não sou eu que vou ficar calada. Ouvi muita piadinha de mau gosto, tive que correr atrás das notas e foi a primeira mas não a última vez que eu teria a dita cuja na minha vida.

Há alguns meses, antes de começar o tratamento eu estava no fundo do poço, quase cavando para baixo. Passava os dias na cama, comia mal, dormia mal, raramente levantava e às vezes o Sr. Maia (meu marido) chegava em casa e tinha que perguntar se eu tinha feito coisas básicas como beber água ou fazer xixi. Não foi bonito e eu agradeço muito por ter amigos que em sua maioria entendem o que é depressão e puderam me dar o “empurrãozinho inicial” quando eu percebi que estava muito mal e literalmente postei no facebook “eu preciso de ajuda” se eu tava no fundo do poço, eles me jogaram a corda, mas não era, obviamente, o suficiente.

Quando se tem depressão, a gente pensa “pra que bugalhos eu vou me dar ao trabalho de subir essa corda se nada importa?”. Depois disso procurei um psiquiatra e comecei novamente com os remédios, e sabe, não tem problema nenhum ter que tomar remédios. Se tomar um dois, três ou mais remédios que seja é o que é necessário pra conseguir colocar o pé na escada pra começar a subir, TOME A PITOMBA DO REMÉDIO. E faça terapia. Os remédios te dão o ânimo pra começar a subida mas a jornada pela corda é meio bamba, escorrega, e o que te ajuda a entender como subir pra realmente sair é a terapia.

E saiba que eu entendo de verdade se tudo estiver tão difícil que esse texto só pareça pra você um monte de ladainhas. Mas também saiba que você importa. E muito.
“Tem um zilhão de pessoas no mundo, eu sou só mais uma pessoa pequena no meio do universo, quem se importa?” Eu e ok pode ser que eu não seja muito também mas me importo. Sim somos só uma pessoa no meio de zilhões e isso importa. MUITO.  E se alguém te fizer acreditar que você não importa esse alguém é o errado e não você.

E por fim, eu quero te dizer que pode parecer que não, mas você consegue. Eu tenho certeza que sim.

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