Abraça o Donuts!

17:23



Talvez só uma coisa chegue perto, demograficamente, da quantidade de engenheiros de software por metro quadrado em Bellevue e essa coisa é academias.
Só no quarteirão que eu estou tem 4, todo dia de manhã é possível ver corpos sarados se exercitando de um canto a outro. Nessa região as pessoas não marcam coisas de domingo por que é dia de fazer hiking, e as pessoas adoram fazer isso. Na falta de um, tem dois mercados de comida natural/orgânica por aqui e não raro as pessoas parecem ter saído de revistas de fitness e saúde.


Pois bem.


Outro dia em um dos Meetups que eu participo aqui por Bellevue- Seattle e se você não conhece o site/app do Meetup eu recomendo muito que dê uma olhada, é um ótimo jeito de conhecer pessoas com interesses em comuns na sua região; voltando à vaca fria, num desses encontros para treinar Inglês que tem participação de falantes nativos bem como de estrangeiros de todas as partes do mundo que você possa imaginar, um vietnamita me perguntou se eu estava grávida.


Mais oi?


Respirei fundo, olhei nos olhos deles e respondi “Tô não, é só donuts mesmo” e desatei a rir. Ele ficou sem graça mas riu também, afinal eu queria mandar o recado mas muita coisa se perde na “tradução” por aqui.


Talvez na cultura dele isso seja normal. Pra gente costuma ser meio que tabu. E confesso que por mais que tenha “levado numa boa”, horas depois, deitadinha na minha cama veio a voz. Aquela sabe, chatinha que vem do nada e só serve pra atrapalhar a auto estima, a foda, a vida.


“Ele perguntou isso por que você ta gorda.”


Eeeeeepa, pera aí parte do meu cérebro gastando neurônio com essa joça,  eu não sou e nem “estou” gorda, não faço idéia do que é sentir gordofobia na pele e pensar isso é basicamente um absurdo. Não eu não sou magra padrão revista, aliás tô bem longe de padrões em geral mas vamos parar com a neura.


Não obstante, continuei com isso na cabeça. Vai ver eu to com barriguinha, pensei. Melhor contar caloria, melhor não usar mais aquele vestido, melhor se matar na academia, melhor não comer mais carboidrato, melhor deixar os donuts pra lá.


A verdade é que por mais que na maioria do tempo eu esteja feliz com o meu corpo, ou pelo menos aparente estar, é dificil escapar do bombardeiro midiático; do “emagraça x quilos em 3 semanas trocando tudo de saudável por água de xuxu” é um saco procurar inspiração de looks no pinterest e saber que eles não vão ficar assim daquele jeito em mim porque as minhas coxas são grossas, porque eu sou baixinha, porque eu não uso salto alto…


Isso que eu só não sou “padrão” mas ainda consigo encontrar roupas do meu tamanho em quase qualquer loja e não passo o que muitas minas realmente gordas passam.


Naquela semana eu me senti feia, me senti errada, não queria vestir nada, comecei a querer me apagar quando saía na rua.


Até que nossa senhora da desconstrução me deu a luz.


Eu nunca, nunquinha a menos que fique doente vou ter um thigh gap ou ser padrão revista, magrinha de pernas finas, longilínea. Eu NASCI com coxas grossas, de bracinhos mais cheios e tamanho hobbit e quem ta errado é o mundo em querer me dizer que eu não sou suficiente sendo eu e não o contrário.

Então coma o donut, pinta o cabelo, usa tênis até em casamento, valoriza as suas coxas, coloca um brincão maravilha e brilho até não poder mais porque padrão só serve mesmo pra ser quebrado.

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